Skip to content

(des)emprego dos sonhos

November 20, 2013
by

(Senta que lá vem história… é isso que acontece quando eu passo muito tempo sem escrever! Reli uns posts antigos aqui no blog e fiquei com vontade de registrar um pouco do que está acontecendo pra poder reler daqui uns anos.)

Esse não é um post de fotos do mês. É um post sobre uma imigrante que tinha um emprego dos sonhos. Ou melhor, ela tinha o sonho de um emprego dos sonhos…

Eu nunca escrevi muitos detalhes sobre como acabei indo trabalhar em uma fazenda urbana em cima de um prédio. O resumo (não tão resumido assim) é mais ou menos o seguinte :

Ainda no Brasil, tentando manter minha sanidade mental enquanto esperava o fim do processo de imigração, assisti um programa québecois na internet que falava de ecologia e mostrava a fantástica ideia de um jovem empreendedor que tinha construido a primeira estufa comercial sobre um teto no mundo, mais precisamente num pedacinho do mundo chamado Montreal. Sonhando com uma nova vida, onde eu trabalharia por meus ideais e não por dinheiro, eu pensei «que sonho trabalhar numa empresa como essa!».

Eu tinha decidido parar de mandar CVs até chegar em Montreal, até mesmo porque, minhas tentativas não tinham rendido nem um misero e-mail de agradecimento. Mas quando vi a tal fazenda, o coração me disse que eu devia mandar. Eles tinham uma vaga de ajudante de estufa, trabalho braçal, colher tomates e tudo mais, mas quem se importa? Se é pra mudar de vida, que seja em algo que eu acredito! Caprichei em um carta de apresentação como nunca tinha feito antes, anexei meu melhor CV em francês e… nada!

Uns 3 meses se passaram, quando recebi um e-mail do presidente da empresa me perguntando se eu me interessava por uma vaga em vendas. Eu odeio vendas, mas é claro que disse que sim! E imigrante em inicio de carreira lá pode escolher onde quer trabalhar e o que vai fazer? Ele queria marcar uma entrevista e eu disse que só chegaria no final de janeiro. Mais algumas semanas de silencio e ele me responde que a vaga tinha sido preenchida, mas queria me conhecer mesmo assim. E lá estava eu, pré-imigrante satisfeita com uma entrevista marcada antes mesmo de pisar no Québec.

Contratada e desiludida. Descobri em poucos dias que aquilo era apenas mais um emprego. Eu tinha criado uma visão romatica da coisa… no fundo no fundo estavamos todos lá com um grande objetivo em comum : tornar mais rico o dono da empresa. Sim, uma empresa com fins lucrativos explorando uma tendencia do mercado e não uma ONG que quer mudar o mundo. Até aí, nada demais, o grande problema foi mesmo a expectativa que eu criei.

O dono da empresa é um capitulo à parte e eu me prometi não me extender sobre o assunto pro texto não ficar cheio de energias negativas. Digamos que por motivos culturais ou simplesmente porque o dinheiro é a religião dele, a gente não se entendeu direito desde o começo. Eu, que fui contratada para ser sua assistente, comecei a ter sérios problemas para trabalhar com ele. Aquela coisa que acontece quando o santo não bate. Não batia mesmo e eu comecei a procurar outro emprego 3 meses depois de começar. Fait que, ele descobriu que eu estava procurando e tivemos uma conversa, onde ele me rebaixou mais que coco do cavalo do bandido e no final me deu as chaves do seu chalé nas montanhas e do carro do seu irmão que estava viajando para eu passar o fim de semana. Fofo, não?

Voltando do feriado e sem saber o que seria de mim, ele me chama pra conversar e me oferece uma promoção. Salario maior e não mais trabalhando diretamente com ele, as coisas ficaram melhores. E foi assim durante 1 ano e meio, em que eu fazia um trabalho que, se não era extremamente motivador, também não era ruim. Aprendi muitas coisas e desenvolvi habilidades, e no final das contas, se fosse pra dar dinheiro para alguém, pelo menos eu estava feliz porque acreditava no produto final da empresa. Meu trabalho lá teve muitos altos e baixos, incluindo alguns aumentos de salário dos quais não posso reclamar. Também não posso reclamar das pessoas que trabalharam comigo, uma equipe de pessoas novas, mas super esforçadas, que acreditam no projeto e trabalham forte por isso.

Mas eu não estava nada feliz. Tinha entrado em conflito com o dono de novo algumas vezes e ele estava me testando muito. Eu estava estressada, com muito ódio dentro do meu coraçãozinho e isso não faz bem. Sem coragem de pedir as contas – porque afinal, imigrante precisa manter o nível de conforto financeiro conquistado – eu estava procurando emprego, mandando CVs aqui e ali, sem muito sucesso.

Foi quando, numa tarde cinzenta de segunda-feira, fui chamada e informada que estava sendo demitida por motivos financeiros. Eu nunca tinha sido demitida e achei que seria algo mais difícil, mas não. Foi bem fácil e eu percebi quanto peso eu vinha carregando há tanto tempo sem me dar conta. Fiquei mais leve. Cheguei a ficar feliz. Oui, o governo ia me pagar 55% do meu salário pra eu ficar em casa procurando emprego, assando bolos e repensando o sentido da vida. Era o que eu precisava!

Mas a vida não quis que minha carreira de dona de casa decolasse. O meu acordo de demissão incluia 3 semanas de salário, mesmo se eu tinha parado de trabalhar no dia seguinte. E exatamente no último dia dessas 3 semanas, consegui um novo emprego. Eu agora estou trabalhando há 1 semana como «conseillère marketing» em um orgão paragovernamental que dá consultoria para empresas sem fins lucrativos com alguma missão social ou ecológica e que se beneficiam de vários subsídios do governo.

Ainda não entendi muito bem como vai ser o meu dia-a-dia e fico me perguntando se eu tenho a experiência necessária para fazer o trabalho. Só sei que o ritmo é bem diferente : 35h por semana, tudo com muita calma e bom humor. As pessoas são simpaticas e estão me ajudando bastante. E, apesar do horário oficial ser das 9h às 17h, por 3 vezes eu fui «expulsa» do escritorio às 16h30 porque «é sexta feira» ou porque «chega por hoje». No melhor estilo funcionário público.

Trabalhar ajudando empresas que querem fazer o bem, com um salário maior para menos horas por semana e que vai dar uma boa reforçada no meu CV. Se esse é um emprego dos sonhos, o tempo vai dizer e eu volto aqui para escrever sobre isso. Por enquanto, eu continuo esperando alguém vir me falar que é pegadinha…

Advertisements
6 Comments leave one →
  1. Sui permalink
    November 20, 2013 18:30

    Gostei Julia por vc ter enfrentado todos estes problemas numa boa !
    Tenho que te dar parabens pela coragem…Espero que de agora em diante
    seu trabalho seja agradavel e tranquilo.Saudades bjo

  2. November 20, 2013 22:43

    Esposa feliz, marido feliz! :)

  3. Sandra Nogueira permalink
    November 21, 2013 06:02

    É vivendo que se aprende… As experiências nos enriquecem… O importante é ser Feliz!!!

  4. November 22, 2013 06:49

    O importante é ser feliz, imagino que a mudança pro Canadá tenha tido a felicidade como um dos objetivos, não? Sucesso pra ti. Beijos!

  5. Brazucoise permalink
    November 22, 2013 09:42

    Legal vc compartilhar isso por aqui, Julia.
    Eu, por exemplo, tenho uma visão meio “romântica” do mundo corporativo canadense. Confesso que fiquei até surpresa com o perfil do seu ex-chefe.
    Tenho que parar de ser tão Pollyanna…rs!
    Beijos e parabéns pelo post! :D

  6. November 25, 2013 20:52

    demissão pode ser bom.
    e emprego dos sonhos não existe.
    boas lições.

Comente

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: